quinta-feira, 7 de julho de 2011

Ao que vai nascer...



Querido Inácio,

Hoje vivendo a alegria e a ansiedade da sua chegada veio a vontade de recorrer aquelas que sempre foram minhas fiéis escudeiras – as palavras – para lhe dar as boas vindas a este vasto mundo.

Sei que deve demorar alguns anos para que entenda e compreenda tudo que aqui esta escrito, mas fico com a boa sensação de que o meu simples pensar lhe reveste daquilo que aqui lhe desejo.

Como começo dessa conversa lhe desejo que ame o outro e o conheça, respeitando-o em todas as suas particularidades. Não há nada mais interessante neste mundo do que conhecer pessoas diferentes, de lugares e culturas diferentes. Não queira jamais vestir a carcaça do pré-conceito, conceituar antes de conhecer é um dos grandes males do mundo hoje. Ainda existe dificuldade em entender que o bonito do mundo é “que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”.

A fé é outro ponto interessante dessa nossa conversa. Compartilho da idéia de que é necessário que o homem tenha fé, que acredite que além dele e de seus semelhantes existam forças que nos conduzam. Tenha fé, acredite! Mas não queira personificar isso em uma só imagem, não se isole com os muros que as religiões colocam em nome de seus deuses, saiba que Deus “é as árvores e as flores e os montes e o luar e o sol. Se ele me aparece como sendo árvores e montes e luar e sol e flores, é que ele quer que eu o conheça como árvores e montes e flores e luar e sol”.

Jamais duvide da existência de anjos, sim eles existem! Mas também não são personificados e midiáticos como aparecem por aí, são pessoas como você que durante toda a vida passarão lhe direcionando o caminho, impedindo tropeços, compartilhando da felicidade de certos momentos, mas quando você sentir falta deles irá perceber que já não estão tão próximos de você.

Família é uma coisa meio esquecida nos dias de hoje, mas você tem privilégio de nascer em um berço que este valor ainda é algo muito bem preservado. Ser família é algo que vai além dos laços sanguíneos que os cercam, ser família é carregar princípios e valores que nos ajudam a construir o caráter de um bom cidadão. Ser família é gostar de estar junto, é vibrar com a felicidade do próximo e estar presente nas dificuldades antes mesmo que seja preciso chamar. Valorize a família, tenha seus pais como exemplos, seus irmãos como companheiros de vida, seus tios como amparo, seus primos como a concretização de amizades verdadeiras e seus avós como um porto de aconchego e carinho.

Meu pequeno, desejo que a vida lhe seja grata, que sua chegada venha repleta de boas novas, bons ventos e boas energias. Queira desfrutar da vida, não se preocupe com o futuro, pré-ocupar a cabeça com aquilo que ainda está por vir nos impede de viver o hoje. Leia, sim leia muito e de tudo, tenha a leitura como companheira e lhe permita o prazer de viajar sem sair do lugar. Ouça boa música, a música consegue nos fazer vibrar em sintonias que só nós mesmos podemos descobrir. Tenha as palavras como fiéis escudeiras, sejam escritas, como garantia de expressão, ou faladas, com o prazer de um bom diálogo. Não perca tempo com a inveja, faça elogios sem querer receber em troca, pratique a caridade, tenha amigos e dê valor a amizade, não tenha medo de expor sentimentos e acima tudo acredite em você, saiba que “cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”.



Bem vindo!
Um forte e carinhoso abraço,
do tio Walter.




sexta-feira, 23 de maio de 2008

"Caso você queira saber"


Caso você queira saber,
meu mestre vai passar, e eu?
Eu hei de esperar...

Talvez na próxima turnê,
Talvez no próximo ano,
hei de esperar e esperarei.

Mas ainda há de haver o dia,
que ouvirei os mil tons
de um certo Milton
evocar os cânticos
dos clubes e das esquinas.

Seja em Minas
ou em terras Gerais,
seja onde for
mas que seja Milton Nascimento.

(Walter Veloso)

terça-feira, 29 de abril de 2008

"Além do que se vê"

Tarde de um tipico sábado de outono e o velho senhor está deitado no sofá, calça cinza e desgastada, camisa xadrez e o velho chapéu ao lado. Seus olhos fixos no nada, parecem querer viajar pra longe, mas preso entre as quatro paredes de um apartamento o ambiente é bem diferente daqueles que outrora nos conta. Fiquei a observá-lo...

Seus 86 anos estão escritos no seu corpo, seu olhar distante, a voz rouca, a infíma audição. Os vincos da sua pele contam historias de uma vida realizada. És solitário, e essa solidão por um instante me incomoda.


Em áureos tempos a vida lhe foi bastante grata, pai de 11 filhos, homem de sociedade, político, dono de historias de um faroeste brasileiro. Hoje vive só, cada filho tomou seu rumo, cada neto constrói sua historia e o velho senhor perambula aos cuidados de poucos. Mesmo cercado de conforto e cuidado, as limitações de um velho moribundo o impede de viver a vida que ainda anseia.

Há alguns anos sua principal companhia é a televisão, fiel às telenovelas, torcedor do Vasco e do Atlético e antenado nos principais telejornais. Talvez esteja aí a perfeita lucidez. Mas de uns tempos pra cá a audição tem lhe privando de um de seus últimos prazeres.

Mas foi nesse ultimo fim de semana, que vi brilhar os olhos do velho senhor e o sangue correr em suas veias como um jovem. Algo simples, que poderia ter sido feito há bastante tempo, mas ninguém parou pra pensar que um fone poderia lhe dar tamanha alegria. Apenas um fone ligando-o a televisão foi o bastante para vê-lo sorrir como uma criança, com os olhos vidrados parecia viajar. Estava maravilhado com aquela invenção tecnológica que o devolvera o prazer de estar em sua melhor companhia. Agora a vida do Juvenal, as noticia do Willian e da Fátima e as narrações do Galvão não terão apenas formas e sim historias que dia a dia ajudam meu velho senhor a degustar a vida.

Ah... Senhor Bonifácio, continue a desafiar as leis do tempo e do homem e nos mostrar “que a estrada vai além do que se vê.”.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

"Horas quotidianas"



Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as HORAS QUOTIDIANAS...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
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(A Rua dos Cataventos – Mario Quintana)
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Eis o começo da partilha de muitas horas quotidianas.