sexta-feira, 23 de maio de 2008

"Caso você queira saber"


Caso você queira saber,
meu mestre vai passar, e eu?
Eu hei de esperar...

Talvez na próxima turnê,
Talvez no próximo ano,
hei de esperar e esperarei.

Mas ainda há de haver o dia,
que ouvirei os mil tons
de um certo Milton
evocar os cânticos
dos clubes e das esquinas.

Seja em Minas
ou em terras Gerais,
seja onde for
mas que seja Milton Nascimento.

(Walter Veloso)

terça-feira, 29 de abril de 2008

"Além do que se vê"

Tarde de um tipico sábado de outono e o velho senhor está deitado no sofá, calça cinza e desgastada, camisa xadrez e o velho chapéu ao lado. Seus olhos fixos no nada, parecem querer viajar pra longe, mas preso entre as quatro paredes de um apartamento o ambiente é bem diferente daqueles que outrora nos conta. Fiquei a observá-lo...

Seus 86 anos estão escritos no seu corpo, seu olhar distante, a voz rouca, a infíma audição. Os vincos da sua pele contam historias de uma vida realizada. És solitário, e essa solidão por um instante me incomoda.


Em áureos tempos a vida lhe foi bastante grata, pai de 11 filhos, homem de sociedade, político, dono de historias de um faroeste brasileiro. Hoje vive só, cada filho tomou seu rumo, cada neto constrói sua historia e o velho senhor perambula aos cuidados de poucos. Mesmo cercado de conforto e cuidado, as limitações de um velho moribundo o impede de viver a vida que ainda anseia.

Há alguns anos sua principal companhia é a televisão, fiel às telenovelas, torcedor do Vasco e do Atlético e antenado nos principais telejornais. Talvez esteja aí a perfeita lucidez. Mas de uns tempos pra cá a audição tem lhe privando de um de seus últimos prazeres.

Mas foi nesse ultimo fim de semana, que vi brilhar os olhos do velho senhor e o sangue correr em suas veias como um jovem. Algo simples, que poderia ter sido feito há bastante tempo, mas ninguém parou pra pensar que um fone poderia lhe dar tamanha alegria. Apenas um fone ligando-o a televisão foi o bastante para vê-lo sorrir como uma criança, com os olhos vidrados parecia viajar. Estava maravilhado com aquela invenção tecnológica que o devolvera o prazer de estar em sua melhor companhia. Agora a vida do Juvenal, as noticia do Willian e da Fátima e as narrações do Galvão não terão apenas formas e sim historias que dia a dia ajudam meu velho senhor a degustar a vida.

Ah... Senhor Bonifácio, continue a desafiar as leis do tempo e do homem e nos mostrar “que a estrada vai além do que se vê.”.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

"Horas quotidianas"



Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as HORAS QUOTIDIANAS...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
_
(A Rua dos Cataventos – Mario Quintana)
.
.
.
Eis o começo da partilha de muitas horas quotidianas.